Friday, January 12, 2007

PERDIÇÃO SIGNIFICA AUTO-OBSESSÃO - p. 56

As pessoas perdidas, em termos cristãos, são precisamente aquelas que confundem sua própria pessoa com Deus. Elas identificam falsamente e não podem reconhecer o que está mais próximo delas – elas mesmas. Então, como já observamos, tudo se torna ilusório. Tal pessoa realmente pensa que controla sua vida (ainda que reconheça que para fazê-lo “com sucesso” ela tenha que sujeitar-se exteriormente perante esta ou aquela pessoa ou poder). Mas ela está no controle (ela crê), e não confia naquele que realmente é Deus. E como já vimos, tais pessoas “não consideram prioritário que seu conhecimento dependa de Deus”.

Seu Deus, como Paulo escreveu noutro lugar, é seu “ventre” (Filipenses 3.19), o centro sensível do ser. São escravos voluntários de seus sentimentos ou apetites (Romanos 16.18). Elas “querem o que querem e quando o querem”, como diz a canção, e este é o fato máximo acerca delas. Se elas não o alcançam, tornam-se iradas e deprimidas, e constituem-se um perigo para si mesmas e para os outros.

Deste modo, a auto-idolatria muda toda a paisagem moral e espiritual. Olha todo o universo com olhos diferentes. O orgulho fundamental de colocar a si mesmo no centro do universo é a dobradiça sobre a qual o mundo inteiro arruinado gira.

João Calvino disse que “a fonte mais segura de destruição para o homem é obedecer a si mesmo”*. Não obstante, a obediência própria parece o único caminho razoável para quase todo mundo: “Tão cegamento todos nos apressamos na direção do amor-próprio que cada um pensa ter boas razões para exaltar a si mesmo e desprezar comparativamente a todos os demais.”* Que olho apurado para detalhes Calvino tem. Ele acharia a situação de hoje muito familiar.

As palavras de Dietrich Bonhoeffer reproduzem a situação com precisão: “Visto que a relação primitiva do homem para com o homem é uma relação de dar, no estado de pecado ela é puramente exigente. Cada homem existe em um estado de completo e voluntário isolamento; cada homem vive sua própria vida, em lugar de viver todos a mesma vida de Deus”.* Bem, é claro: cada um é um deus para si mesmo.

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