http://www.mundocristao.com.br/adicionais/renovacao.htm
A renovação do coração
Dallas Willard
Sumário
Dedicatória 7
Agradecimentos 9
Prelúdio 11
1. Introdução à formação espiritual
O "além interior" e o Caminho de Jesus 15
2. O coração no sistema de vida humana 33
3. O mal radical na alma arruinada 55
4. A bondade radical restaurada na alma 75
5. Mudança espiritual
O padrão confiável 91
Interlúdio 111
6. Transformando a mente, 1
Formação espiritual e a vida reflexiva 113
7. Transformando a mente, 2
Formação espiritual e nossos sentimentos 141
8. Transformando a vontade
(coração e espírito) e o caráter 169
9. Transformando o corpo 191
10. Transformando nossa dimensão social 215
11. Transformando a alma 239
12. Os filhos da luz e a luz do mundo 261
13. A formação espiritual na congregação local 281
Poslúdio 307
A renovação do coração
Dallas Willard
Sumário
Dedicatória 7
Agradecimentos 9
Prelúdio 11
1. Introdução à formação espiritual
O "além interior" e o Caminho de Jesus 15
2. O coração no sistema de vida humana 33
3. O mal radical na alma arruinada 55
4. A bondade radical restaurada na alma 75
5. Mudança espiritual
O padrão confiável 91
Interlúdio 111
6. Transformando a mente, 1
Formação espiritual e a vida reflexiva 113
7. Transformando a mente, 2
Formação espiritual e nossos sentimentos 141
8. Transformando a vontade
(coração e espírito) e o caráter 169
9. Transformando o corpo 191
10. Transformando nossa dimensão social 215
11. Transformando a alma 239
12. Os filhos da luz e a luz do mundo 261
13. A formação espiritual na congregação local 281
Poslúdio 307
Dedicatória
Para L. Duane Willard,
que foi grande quando fui pequeno
e sempre guardou um lugar para mim
e a quem amo e estimo ternamente.
Para L. Duane Willard,
que foi grande quando fui pequeno
e sempre guardou um lugar para mim
e a quem amo e estimo ternamente.
Agradecimentos
Como sempre, meu agradecimento a muitas pessoas que me ajudaram ao longo do caminho. Acima de tudo, à minha família, especialmente a Bill Heatley, que leu todo o manuscrito e ofereceu muitas idéias e sugestões. E para John S. Willard, que digitou grande parte do texto e também fez inúmeros comentários perspicazes. James Bryan Smith sugeriu revisões úteis para os primeiros capítulos, enquanto Todd Hunter revisou todo o livro.
Como sempre, meu agradecimento a muitas pessoas que me ajudaram ao longo do caminho. Acima de tudo, à minha família, especialmente a Bill Heatley, que leu todo o manuscrito e ofereceu muitas idéias e sugestões. E para John S. Willard, que digitou grande parte do texto e também fez inúmeros comentários perspicazes. James Bryan Smith sugeriu revisões úteis para os primeiros capítulos, enquanto Todd Hunter revisou todo o livro.
Prelúdio
Aqueles que beberem da água que eu lhes der nunca mais terão sede. A água que eu lhes der se tornará neles uma fonte de água a jorrar para a vida eterna.
Jesus de Nazaré (João 4:14, PAR)1
Quando nos abrimos para os escritos do Novo Testamento, quando embebemos a mente e o coração em um dos evangelhos, por exemplo, ou em cartas como Efésios e 1Pedro, a impressão arrebatadora que vem sobre nós é que estamos diante de outro mundo e de outra vida: um mundo e uma vida divinos. É uma vida no "reino dos céus". No entanto, é um mundo e uma vida em que pessoas comuns entraram e estão entrando até hoje. É um mundo que parece aberto para nós e nos convida a entrar. Sentimos seu chamado.
As maravilhosas promessas aos que dedicam sua vida a esse mundo novo, por meio da fé em Jesus, saltam das páginas sobre nós. Por exemplo, lemos as palavras de Jesus: os que se entregarem a ele receberão "água viva", o Espírito do próprio Deus, que não os deixará ter sede novamente — serem dirigidos e governados por desejos insatisfeitos. Essa "água" se tornará uma fonte ou nascente de uma água "a jorrar para a vida eterna" (Jo 4:14, PAR). Na verdade, a fonte até se transformará em "rios de água viva", fluindo do centro da vida do fiel para um mundo sedento (Jo 7:38).
Ou então lemos a oração de Paulo em Efésios para que os cristãos possam "conhecer o amor de Cristo que excede o conhecimento, de forma que fiquem cheios de toda a plenitude de Deus [...] pelo poder que age dentro de nós e que pode realizar profusamente mais que tudo o que podemos pedir ou imaginar" (3:19-20, PAR). Ou as palavras de Pedro sobre quanto os que amam e confiam em Jesus "exultam com alegria indizível e gloriosa" (1Pe 1:8), com o "amor fraternal e sincero" emanando de seu coração (1:22), e libertam-se de "toda maldade,hipocrisia, inveja e toda espécie de maledicência" (2:1), silenciam os que zombam do Caminho de Cristo ao simplesmente fazer o que é certo (2:15) e lançam todas as ansiedades sobre Deus, porque ele cuida de nós (5:7).
A visão é clara, e ninguém aberto a ela pode se enganar sobre seu significado. Mas, apesar de tudo ser claro e desejável, devemos admitir que, em muitos períodos históricos, assim como hoje, os cristãos em geral apenas encontram o caminho por essa vida divina de forma lenta e com grande dificuldade, quando o encontram.
Creio que uma das razões pelas quais as pessoas de fato falham em se aprofundar nas palavras do Novo Testamento, chegando a negligenciá-las ou até mesmo a evitá-las, é que a vida que vêem ali é muito diferente da que conhecem por experiência. Isso é verdade ainda que possam ser bastante fiéis à sua igreja, nas formas prescritas, e que realmente tenham Jesus como única esperança. Portanto, a clara apresentação da vida no Novo Testamento, que nos é oferecida em Cristo de forma inequívoca, somente as desencoraja ou lhes tira a esperança.
Por que isso acontece? Certamente a vida que Deus nos oferece em Cristo Jesus não foi planejada para ser um enigma insolúvel! O que nos deixa apenas com a explicação de que, apesar de nossas boas intenções e métodos enérgicos, não nos aproximamos e recebemos aquela vida do modo correto. Não compreendemos e transmitimos a sabedoria de Jesus e da Bíblia sobre o ser humano e sua redenção através da graça, libertando-o dos poderes destrutivos que se apossam dele em todas as suas dimensões básicas.
Não é de fato verdade que onde existe vontade existe automaticamente um caminho, embora naturalmente a vontade seja essencial. Também é necessário um entendimento do que, de modo exato, precisa ser feito e de como pode ser realizado, dos instrumentos para a realização daquela vida e da condição correta de seu usufruto.
A formação espiritual em Cristo é um processo ordenado. Embora Deus possa triunfar na desordem, esta não é sua escolha. E em vez de nos fixarmos no que Deus pode fazer, devemos nos humilhar para aceitar os modos que ele escolheu para trabalhar conosco, os quais estão claramente dispostos na Bíblia e, em especial, nas palavras e na pessoa de Jesus.
Ele nos convida a deixar nossos caminhos penosos do trabalho pesado — particularmente o "religioso" — e tomar o jugo de sua instrução. Esse é um caminho de bondade e humildade, um caminho de descanso para a alma. É um caminho de transformação interna, em que tomar seu jugo e levar seu fardo, com ele, provam ser uma vida leve e suave (Mt 11:28-30). A distância e a dificuldade percebidas para entrar por completo no mundo divino e em sua vida se devem inteiramente ao nosso fracasso em compreender que "o caminho interno" é o caminho de uma transformação interior geral, e também ao nosso fracasso em dar os pequenos passos que tranqüila e certamente levam a ele.
Eis a compreensão auspiciosa, redentora da vida. Para o indivíduo, isso significa que todos os obstáculos que nos impedem de despir a velha pessoa e vestir a nova podem ser removidos ou dominados. E tal condição nos permitirá andar cada vez mais na totalidade, na santidade e no poder do reino dos céus. Ninguém precisa viver derrotado espiritual e pessoalmente. Uma vida de vitória sobre o pecado e as contingências é acessível a todos.
Com relação a nossos grupos cristãos e seus líderes, significa que há um modo simples, direto, em que as congregações do povo de Jesus podem, sem exceção, cumprir seu chamado para ser uma ekklesia, seus "eleitos": um ponto de contato entre céu e terra, em que a cura oferecida pela cruz e pela ressurreição podem salvar o perdido e desenvolver o salvo para a plenitude de seres humanos em Cristo. Não é necessário habilidade, projeto, talento ou técnica — nem mesmo se exige um orçamento —, apenas fidelidade ao processo de formação espiritual conforme Cristo expôs nas Escrituras e na vida do ""povo particularmente seu" ao longo das eras (Tt 2:14).
Introdução à formação espiritual
O "além interior" e o Caminho de Jesus
Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida.
Provérbios 4:23
Vivemos a partir de nosso coração. A parte de nós que impulsiona e organiza nossa vida não é o físico (o que permanece verdadeiro mesmo se o negarmos). Você possui um espírito dentro de si que foi formado. Ele adquiriu um caráter específico. Eu tenho um espírito e ele foi formado. Isso é válido para todos.
O espírito humano é um aspecto inevitável e fundamental de todo ser humano. Ele adquire seu caráter, qualquer que seja, das experiências vividas e das escolhas feitas no passado. É isso o que significa ser "formado".
Nossa vida e a forma como percebemos o mundo agora e no futuro é, quase totalmente, um simples resultado daquilo que nos tornamos na profundeza de nosso ser (espírito, vontade ou coração). De lá vemos nosso mundo e interpretamos a realidade. De lá fazemos nossas escolhas, partimos para a ação, tentamos mudar nosso mundo. Vivemos a partir de nossa profundidade — a maior parte da qual não compreendemos.
"Você quer dizer", alguns dirão, "que os desastres individuais e coletivos que preenchem a cena humana não são impostos a nós de fora? Que eles não nos acontecem simplesmente?". Sim. É isso o que quero dizer. No mundo de hoje, fome, guerra e epidemia são quase totalmente resultados de escolhas humanas, que são expressões do espírito humano. Embora várias qualificações e explicações sejam necessárias, isso é, em geral, verdadeiro.
Os desastres individuais também em grande parte se seguem às escolhas humanas, as nossas ou as dos outros. Ocorram ou não numa forma específica, as situações nas quais nos encontramos nunca são tão importantes quanto nossas respostas a elas, as quais vêm de nosso "lado espiritual". Um coração cuidadosamente cultivado irá, auxiliado pela graça de Deus, prever, evitar ou transformar a maioria das situações dolorosas, diante das quais outros se erguem como crianças desamparadas perguntando: "Por quê?".
A Bíblia está repleta de sabedoria sobre tais questões. É por isso que chamamos os principais livros do Antigo Testamento de "literatura de sabedoria". E Jesus resume todos em seus ensinamentos. Ele é o poder e a sabedoria de Deus (1Co 1:24). Por exemplo, o Mestre nos diz: "Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais lhes será dado" (Mt 6:33, PAR). E:
... quem ouve estas minhas palavras e as pratica é como um homem prudente que construiu a sua casa sobre a rocha. A chuva caiu e os rios transbordaram, e os ventos sopraram e deram contra aquela casa, e ela não caiu, pois foi construída na rocha.
Mateus 7:24-25, PAR
Dessa forma, a maior necessidade que você e eu temos — a maior necessidade da humanidade como um todo — é a renovação de nosso coração. O lugar espiritual dentro de nós, de onde vem nossa perspectiva, nossas escolhas e ações, foi formado por um mundo distanciado de Deus. Agora ele precisa ser transformado.
Realmente, a única esperança da humanidade reside no fato que, do mesmo modo como nossa dimensão espiritual foi formada, ela também pode ser transformada. Agora e ao longo dos tempos, a necessidade foi reconhecida por todos os que pensaram com profundidade sobre nossa condição — desde Moisés, Salomão, Sócrates e Espinosa, até Marx, Nietzsche, Freud, Oprah e as atuais feministas e os ecologistas. Nós, com todo o acerto, pregamos continuamente de nossos púlpitos a respeito de tal possibilidade e necessidade. As discordâncias só aparecem quando se indica o que em nosso espírito precisa ser mudado e como tal mudança pode ser efetuada.
A revolução de Jesus
E nesses dois pontos repousa a inevitável relevância de Jesus para a vida humana. Há cerca de dois mil anos, ele reuniu seu pequeno grupo de amigos e discípulos nas encostas da Galiléia e os enviou para "ensinar todas as nações" — isto é, fazer alunos (aprendizes) para ele de todos os grupos étnicos. Seu objetivo é, conseqüentemente, colocar sob a direção de sua sabedoria, sua bondade e seu poder toda a vida humana, como parte do plano eterno de Deus para o universo.
Não devemos errar neste assunto. Ao enviar assim seus seguidores, ele pôs em ação uma revolução mundial perene: uma que ainda está em curso e continuará até que a vontade de Deus seja feita na terra como é no céu. Quando a revolução atingir seu ápice, todas as forças do mal conhecidas pela humanidade serão derrotadas e a bondade de Deus será conhecida, aceita e alegremente adaptada a cada aspecto da vida humana.1 Ele escolheu realizar isso com seus discípulos e, em parte, por intermédio deles.
É ainda hoje verdadeiro, conforme o serafim angelical proclamou na visão de Isaías, que "a terra inteira está cheia da sua glória", a glória do santo Senhor dos exércitos (Is 6:3). Mas ainda está por vir o dia em que "a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas enchem o mar" (Hb 2:14).
A revolução de Jesus é em primeiro lugar e permanentemente uma revolução do coração ou espírito humano. Ela não nasceu e não nasce do estabelecimento de instituições sociais e de leis, da forma externa de viver, supondo-se que essas poderiam impor então uma boa ordem na existência das pessoas que vivem sob seu poder. Antes, o propósito de Jesus é uma revolução do caráter, que se processa pela mudança das pessoas a partir de seu interior, por uma contínua relação pessoal com Deus em Cristo e com os outros. É uma revolução que muda as idéias, as crenças, os sentimentos e os modos de escolha, bem como as tendências corporais e as relações sociais. Ela penetra nas camadas mais profundas da alma. As organizações sociais externas podem ser úteis para esse fim, mas não são o fim, nem são a parte fundamental dos meios.
Em contrapartida, a partir das profundezas da pessoa divinamente renovadas, as estruturas sociais serão transformadas de modo natural, de forma que "corra a retidão como um rio, a justiça como um ribeiro perene" (Am 5:24). Tais ribeiros não podem fluir por meio de almas corrompidas. Reciprocamente, a pessoa renovada "por dentro" não cooperará com evidentes ribeiros de injustiça. Ela irá barrá-los — ou morrer tentando. É a única coisa que se pode fazer.
T. S. Eliot certa vez descreveu o atual empenho humano como a tentativa de encontrar um sistema de ordem tão perfeito que não teríamos de ser bons. O Caminho de Jesus nos diz, ao contrário, que qualquer tipo de sistema — nem todos, na verdade — funcionará bem se formos genuinamente bons. E somos então livres para buscar o melhor e o superior.
A impotência dos "sistemas" é a principal razão pela qual Jesus não mandou seus discípulos iniciar governos ou até mesmo igrejas como as que conhecemos hoje, que sempre carregam fortemente alguns elementos de um sistema humano. Eles deveriam, ao contrário, estabelecer postos avançados de sua pessoa, sua palavra e seu poder no meio de uma humanidade fracassada e fútil. Eles deviam trazer a presença do reino e de seu Rei em cada recanto da vida humana simplesmente por viverem por completo no reino e com ele.
Aqueles que o receberam como seu Senhor vivo e permanente instrutor se tornaram o "povo escolhido de Deus, santo e amado" (Cl 3:12) e aprenderam como ser "puros e irrepreensíveis, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração corrompida e depravada, na qual brilham como estrelas no universo, erguendo a palavra da vida" (Fp 2:15-16, PAR).
As igrejas — pensando agora nas congregações locais desse povo — seriam naturalmente o resultado. As igrejas não são o reino de Deus, mas são expressões primárias e inevitáveis, postos avançados e instrumentalidades da presença do reino entre nós. Elas são "sociedades" de Jesus, surgindo em Jerusalém, na Judéia, em Samaria e até nos confins da terra (At 1:8), conforme a realidade de Cristo é posta em contato com a vida humana comum. Esse é um processo contínuo, mas contudo não completado até hoje: "E este evangelho do Reino será pregado em todo o mundo como testemunho a todas as nações, e então virá o fim" (Mt 24:14).
O "interior" humano
Pela presença de seu reino, Jesus responde às mais profundas necessidades de justiça, subsistência e propósitos existentes na personalidade humana. Mesmo que o ignoremos, ainda teremos de enfrentar as inevitáveis questões: O que faz nossa vida ser como é? O que a faria ser como deveria? A incapacidade de encontrar respostas adequadas nos deixa desorientados em meio à enxurrada de eventos que nos envolve, e à mercê de quaisquer idéias e forças que se abatam sobre nós. O que é, basicamente, a situação humana. Você pode ver isso dia após dia ao seu redor.
No entanto, os pensadores ao longo do tempo procuraram responder a essas indagações, e eles descobriram de forma unânime que o mais importante, con forme já declarado, a respeito de como a vida é e de como deveria ser está naquilo que somos por "dentro". Coisas boas e ruins nos acontecerão, com toda a certeza. Mas o que vale nossa vida, ao menos para os que alcançaram a maioridade, é, em grande parte, se não completamente, uma questão do que nos tornamos no interior. Esse "interior" é a arena da formação espiritual e, depois, da transformação.
No interior estão nossos pensamentos, sentimentos e nossas intenções — e suas fontes mais profundas, quaisquer que sejam. A vida que levamos em nossos momentos, nossas horas, nossos dias e anos, nasce de uma profundidade oculta. O que está em nosso "coração" importa mais que qualquer outra coisa para aquilo em que nos tornamos e para o que nos acontece. "Você está aqui em meus braços", diz a velha canção, "mas onde está seu coração?". É isso o que de fato importa, não apenas para as relações individuais, mas também para a vida como um todo.
O escritor Oscar Wilde observou certa vez que por volta dos quarenta anos cada um tem a face que merece. Isso é de fato profundo, apesar de doloroso, verdadeiro. E realmente se aplica ao "interior" expresso pela face — ao coração e também à alma —, não meramente à face como uma área superficial do corpo. Caso contrário, não teria muita importância.
Ora, justamente na superfície perceptível de nosso "mundo interior" repousa alguns de nossos pensamentos, sentimentos, nossas intenções e nossos planos. Trata-se daqueles dos quais temos consciência. Eles podem ser bastante óbvios aos outros, bem como a nós mesmos. Em seus termos, conscientemente expomos nosso mundo e nossas ações dentro deste.
Mas esses aspectos superficiais também são uma boa indicação da natureza geral da "profundidade espiritual interior" inconsciente, de que tipo de coisas ela é composta. Mas os pensamentos, os sentimentos e as intenções de que temos consciência são, afinal de contas, apenas uma pequena parte daqueles que estão realmente lá em nossa profundidade; e eles muitas vezes não são os mais reveladores de quem na verdade somos e do por quê fazemos o que fazemos.
O que realmente pensamos, como realmente nos sentimos e o que realmente faríamos em circunstâncias previstas e imprevistas pode ser totalmente desconhecido de nós ou de outros próximos a nós. Podemos passar uns pelos outros — até mesmo passar por nós, se você puder imaginar isso — como "navios na noite". Fazemos isso o tempo todo.
A dimensão oculta de cada vida humana não é visível aos outros, nem é completamente alcançável até para nós. Em geral sabemos muito pouco sobre as coisas que se passam em nossa alma, o nível mais profundo de nossa vida, ou sobre o que a está guiando. Nosso "interior" é incrivelmente complexo e sutil — até mesmo tortuoso. Ele leva uma vida própria. Somente Deus conhece nossas profundezas, o que somos e o que faríamos.
Assim o salmista clama a ajuda de Deus ao precisar lidar... consigo mesmo! "Sonda-me, ó Deus". "Que as meditações do meu coração sejam agradáveis a ti". "Renova dentro de mim um espírito justo". Num certo ponto, meu "além interior" (meu coração) foi formado e estou, portanto, à sua mercê. Somente Deus pode me salvar.
O aspecto "espiritual" do homem
Já falei do mundo recôndito do eu como nosso lado espiritual. As expressões "espiritual", "espírito" e "espiritualidade" têm se tornado cada vez mais comum nos dias de hoje, o que não pode ser evitado. Mas elas possuem freqüentemente um significado obscuro, e isso pode ser perigoso. Os termos podem nos levar a caminhos de confusão e destruição. "Espiritual" não é automaticamente "bom". Precisamos ter muito cuidado com tal linguagem. No entanto, sob o sentido de "espiritual", que significa simplesmente "não-físico", o mundo oculto ou interno do eu humano é de fato espiritual.
É interessante que, apesar dos grandes avanços em conhecimento científico — o esplêndido produto do pensamento humano —, esses progressos nada dizem sobre a vida interior do ser humano. O mesmo vale para os campos de estudo que tentam se basear em tal conhecimento. No máximo, as ciências podem indicar algumas correlações fascinantes e importantes entre nossa vida interna e os eventos no mundo físico e social à nossa volta.
Isto ocorre porque a matéria das ciências é, com precisão, o mundo exterior, físico, mensurável, imediatamente perceptível: grosso modo, o mundo "dos cinco sentidos", conforme dizemos com freqüência. Por sua natureza, o físico é um tipo de realidade diferente por completo do lado espiritual do ser humano, que permanece "oculto" de um modo que não ocorre com o mundo físico. Trata-se sem dúvida de uma história antiga, mas não raro reprimida ou esquecida. A ciência não percebe o coração.
Paradoxalmente, nosso "lado espiritual" — embora não seja perceptível aos sentidos e nunca possamos de nenhuma forma compreendê-lo por inteiro — nunca está de maneira integral ausente de nossa mente. Ele sempre permanece na margem da consciência, quando não no centro. Na verdade, é a única coisa celebrada (ou degradada) nas artes, na biografia e na história, na maioria dos escritos populares em revistas e outras mídias. Sua ênfase está continuamente no que as pessoas pensam e sentem, no que podem ou devem fazer e por que e que tipo de caráter possuem. Os seres humanos "fofocam" sobre qualquer coisa, e muito daquilo que é chamado de "notícia" é na verdade apenas fofoca.
Mas isso só enfatiza quanto estamos sempre conscientes do lado espiritual da vida. Sabemos imediatamente o que realmente importa. Prestamos mais atenção em tal aspecto — em nós mesmos e nos outros — que em qualquer outra coisa. E há uma profunda sabedoria nisso, ainda que muitas vezes deturpada. Pois o espiritual simplesmente é nossa vida, não importa as grandes teorias que defendamos ou o que dizemos ao tentarmos ser "intelectuais", "bem informados" ou "atualizados".
Esse interesse inesgotável explica por que nas últimas décadas e de muitas formas o espiritual, no sentido humano abrangente, tem repetidamente se colocado na vanguarda de nossa consciência. Das revoluções culturais e artísticas dos anos 1960 aos ambientalismos e inúmeras "espiritualidades" dos anos 1990 — desde a cultura pop, new age, até os pós-modernismos da academia —, a expansão dos protestos vindos das profundezas humanas tem nos últimos tempos gritado para nós que o lado físico e evidente do universo humano não pode sustentar nossa existência. "Nem só de pão viverá o homem". Fazemos bem em ouvir, não importa quem esteja falando.
Estas são, é claro, palavras de Jesus. E seu caminho é verdadeiramente o caminho do coração, ou do espírito. Se andarmos com ele, devemos andar por esse nível interior. Aliás, bem poucos não compreendem tal verdade sobre o Mestre. Ele nos salva pela verdadeira restauração do coração para Deus e, então, habita ali com seu Pai, por meio do inconfundível Espírito divino. O coração assim renovado e habitado é a única verdadeira esperança da humanidade.
A declaração "nem só de pão viverá o homem" foi adaptada por Jesus Cristo da história da experiência judaica com Deus. Jesus foi, entre outras coisas, a expressão mais profunda e poderosa dessa experiência, que, porém, ainda recebeu um novo e profundo significado por sua morte e ressurreição. Através desses eventos, o Senhor estabeleceu uma ordem radicalmente nova de vida sobre a terra, no interior do reino de Deus. Uma vida livre de qualquer específica forma étnica ou cultural. Todos os seres humanos podem agora viver a vida do coração renovado, alimentando-se constantemente de presença pessoal de Jesus — agora, aqui em nosso mundo, para além de sua morte e da nossa.
Ao contrário do que muitos dizem, nossa libertação (salvação) não surge das obscuras profundidades humanas, das quais brota nossa vida natural — contenha ela ou não uma "realidade suprema" ou uma "inconsciência coletiva". Jesus, porém, age nessas mesmas profundidades e por seu intermédio, independentemente do seu conteúdo, para nos levar a Deus. Ali, também, ele é o Mestre. A renovação espiritual e a "espiritualidade" que vêm de Jesus são nada menos que a invasão da realidade humana natural por uma vida sobrenatural, vinda "do alto".
Espiritualidade e formação espiritual como meramente humanos
Em acentuado contraste, espiritualidade e formação espiritual são muitas vezes entendidas como questões completamente humanas. O "além interior" é considerado uma dimensão ou poder humano que, bastando apenas administrá-lo corretamente, transformará nossa vida em vida divina. Ou ao menos nos libertará do caos e das fraturas da existência humana — no mínimo, talvez, dos hábitos destruidores da vida, como álcool, trabalho, sexo, drogas ou violência. Somos tragados por livros, programas e seminários que se baseiam em semelhante hipótese.
Assim, por exemplo, ouve-se agora a "espiritualidade" descrita como "nossa relação com tudo o que é mais importante em nossa vida". Ou talvez como "o processo de se tornar uma pessoa positiva e criativa". Essas são palavras extraídas de textos contemporâneos e representam correntes profundas do pensamento e da cultura humanos.2
Certamente não pretendemos zombar de algo que seja bom, e verdadeiramente somos gratos por tudo o que ajuda os seres humanos em sua desesperada vida da terra. Nada seria mais compatível com o espírito de Jesus. O permanente amor de Deus se estende a qualquer ser humano que uma vez já tenha existido, às vezes em lugares e situações que o próprio Deus não lhe desejaria, mas que tenha produzido coisas boas. Mas é uma questão de fato se uma espiritualidade ade quada às necessidades humanas, capaz de produzir uma renovação genuína do coração, pode ou não ser o resultado de meras habilidades do homem. Equivocar-se sobre tal assunto acarretará conseqüências de grave natureza.
Em todo o caso, podemos estar certos disto: a formação e, depois, a transformação da vida interior, a partir da qual a existência exterior flui, são problemas humanos dos quais não se pode escapar. A formação espiritual, sem considerar nenhum contexto religioso ou nenhuma tradição específicos, é o processo pelo qual o espírito ou a vontade humana recebe uma "forma" ou caráter definido. É um processo comum a todo o mundo. A mais desprezível, bem como a mais admirável das pessoas, recebeu uma formação espiritual. Terroristas e santos são o resultado de sua formação espiritual. Seu espírito ou coração foi formado. Ponto.
Cada um de nós se torna um certo tipo de pessoa no profundo de seu ser, adquirindo um tipo específico de caráter. É o resultado de um processo de formação espiritual, entendido em termos humanos gerais que se aplicam a todos, quer se deseje quer não. Afortunados ou abençoados são os capazes de descobrir ou se deparar com um padrão de vida que formará seu espírito e seu mundo interior de um modo que sejam verdadeiramente fortes, bons e dirigidos para Deus.
A formação e reforma da vida interna são, portanto, um problema que vem sendo experimentado, tão antigo quanto a humanidade, e os mais remotos registros do pensamento humano oferecem eloqüentes testemunhos da luta para solucioná-lo3 — mas com sucesso muito limitado, é preciso que se diga.
De fato, alguns momentos da história humana alcançaram mais sucesso na elevação do espírito humano do que outros. No entanto, a quantidade de insucessos excede muito o número dos bons resultados, e a média é desanimadoramente baixa. As sociedades do mundo à nossa volta enfrentam atualmente desesperadores dilemas ao tentar produzir pessoas que sejam apenas capazes de lidar com sua vida na terra de modo não-destrutivo. O que é tão verdadeiro para as Américas e a Europa quanto para o restante do mundo, embora a luta tome superficialmente formas diferentes em várias áreas. Em questões espirituais não existe na realidade "Terceiro Mundo". Tudo é "Terceiro Mundo".
Indo além do meramente humano
Assim, a transformação espiritual, a renovação do coração, é um problema inevitável sem solução humana. Não temos nenhuma satisfação em afirmar essa questao. É algo que pode ser aprendido pesquisando a história do mundo, as diversas culturas e os esforços passados e presentes para tratar com vida humana por meio da religião, educação, lei e medicina. E tal observação infelizmente permanece firme quando levamos em conta as muitas técnicas ensinadas nas várias psicologias e espiritualidades concorrentes de nossos dias.
A transformação genuína do indivíduo como um todo, em direção à bondade e ao poder vistos em Jesus e no "Aba" Pai — a única transformação adequada para o eu —, continua sendo o objetivo necessário da vida humana. Mas ela se encontra além do alcance de programas de transformação interior que se utilizam do meramente humano — mesmo quando o próprio espírito do homem é tratado como essencialmente divino.
A realidade de tudo isso está atualmente oculta pelo baixíssimo nível da vida espiritual, em razão da forma como o cristianismo se apresenta hoje diante do público em geral. O baixo nível explica por que há tantas psicologias e espiritualidades competindo nessa área — não raro conduzidas ou dominadas por ex-cristãos que abandonaram as formas reconhecidas de cristianismo por acreditá-las sem esperança ou até mesmo prejudiciais.
Recentemente, porém, um grande e abrangente interesse na formação espiritual, sob esse mesmo nome, surgiu entre muitos grupos de cristãos e seus líderes. Por quê? Principalmente devido a uma percepção — confirmada então por muitos estudos amplos e cuidadosos, bem como por uma esmagadora evidência bastante expressiva — de que o cristianismo, em suas formas públicas, costumeiras e atuais, não tem dado respostas eficazes às questões vitais da existência humana. Ao menos não para extensas camadas dos que se identificam como cristãos e, obviamente, de não-cristãos. E a formação espiritual se apresenta agora como uma esperançosa possibilidade de responder ao clamor, à necessidade não satisfeita da alma humana. A esperança nasce uma vez mais em resposta à necessidade que é, ao mesmo tempo, profundamente enraizada nas tradições cristãs e poderosamente relevante às circunstâncias da vida contemporânea.
Deus avança
Deus periodicamente age sobre seu povo e a cultura que o cerca para alcançar seus propósitos eternos naquela minúscula extensão de tempo cósmico que chamamos "história humana". O que em geral ocorre de um modo que ninguém, exceto ele, poderia ter planejado ou previsto, e de uma forma que está muito além de nosso controle ou compreensão.
Descobrimos, normalmente depois do fato, que uma mudança penetrante e poderosa aconteceu. Uma mudança que pode se dar no indivíduo, no grupo ou em toda uma cultura. Formas tradicionais de fazer as coisas perdem sua eficácia, ainda que tenham sido muito poderosas no passado. Em tais condições, surge o perigo muito real de nos colocarmos em oposição ao que Deus verdadeiramente está fazendo agora e projeta fazer no futuro. Muitas vezes perdemos a oportunidade de agir com Deus no momento presente. Falhamos em encontrar, com a devida rapidez, o odre novo para o novo vinho.
Uma nova manobra de Deus ocorreu com o surgimento do povo hebreu vindo do Egito, "quando chegou a plenitude do tempo", e de novo com a sua ida para o exílio babilônico e, depois, seu retorno de lá. E ainda, vemos o movimento divino no surgimento do povo "cristão" dentro da cultura judaica e, então, o nascimento de um "corpo de Cristo" não-étnico a partir da igreja judaica.
Desde então, os movimentos penetrantes e poderosos de Deus têm acontecido continuamente e sempre durante essa curta permanência de Cristo em seu povo: a derrota do paganismo clássico, o surgimento da forma monástica de devoção cristã, os cistercienses, os franciscanos e as transformações da devotio moderna no monasticismo, a Reforma protestante, o pietismo, o wesleyanismo e o reavivamento estadunidense, além de muitos outros movimentos similares de menor impacto histórico, como as rebeldias contraculturais carismáticas do século XX (o "Povo de Jesus" e outras). O surgimento e o fortalecimento de tais movimentos são claramente o resultado da mão de Deus em nossa vida.
E Deus ainda está agindo. A busca pela formação espiritual (na verdade, conforme indicado, pela transformação espiritual) é de fato antiqüíssima e universal. Ela está arraigada na profunda necessidade pessoal, e até mesmo biológica, de bondade que assombra a humanidade. Ela tomou muitas formas e voltou agora à tona, no início do século XXI, para se encontrar com nossa atual situação. Um processo que, tenho certeza, é parte de uma maré de vida divina que hoje sobe para erguer nossa vida em uma viagem à eternidade. Nosso coração clama: "Senhor, eu quero ser um cristão em meu coração".4
Assim, essa busca, atualmente tão profundamente experimentada, é ao mesmo tempo nova e muito antiga, tão promissora quanto cheia de perigo, iluminadora de nossas falhas e fracassos, e repleta de graça, uma expressão da eterna procura de Deus pelo homem e da necessidade irremovível que o homem tem de Deus. A busca contemporânea pela formação espiritual é essencial à vida de Deus em seu povo, à medida que este agora se move em direção ao cumprimento dos propósitos divinos, para hoje e para o futuro.
Visto da perspectiva sociológica e histórica, bem como espiritual, o novo impulso é um aspecto da dissolução do sectarismo protestante, como nós o conhecemos, e do surgimento de uma nova — mas também antiga — identidade para os cristãos: a intersecção de todas as linhas denominacionais e fronteiras nacionais e naturais.
Hoje, em geral, reconhece-se que a pergunta "Eu sou um cristão?" já não pode ser respondida de nenhum modo significativo pela menção de nomes ou símbolos denominacionais, étnicos ou nacionais. Existem atualmente 33.800 denominações cristãs diferentes na terra.5 É evidente que uma resposta adequada tem de ser mais profunda que nomear nossas associações religiosas; ela deve se referir ao que somos em nosso coração, diante de Deus, no profundo de nosso ser, sempre o centro da formação espiritual cristã.
Tal resposta sempre foi exigida "diante de Deus". Quem poderá negá-lo? Mas isso nem sempre foi reconhecido e enfatizado de forma adequada entre nós — especialmente no passado recente —, embora começamos a fazê-lo cada vez mais hoje. Essa mudança é uma coisa extremamente boa e um início altamente promissor a partir desse passado dos cristãos no mundo.
Formação espiritual especificamente cristã
Podemos dizer, em uma abordagem preliminar, que a formação espiritual cristã basicamente se refere a um processo guiado pelo Espírito, cujo objetivo é formar o mundo interior do eu humano de tal maneira que ele se torne semelhante ao ser interior do próprio Cristo.6 Em seguida, vamos examinar cuidadosamente o que tal declaração significa para os nossos dias. Mas podemos dizer desde o começo que, à medida que a formação espiritual em Cristo obtiver êxito, a vida exterior do indivíduo se transformará em uma expressão natural ou em um fluxo do caráter e dos ensinamentos de Jesus.
A formação espiritual cristã é focalizada completamente em Jesus. Seu objetivo é a obediência ou a conformidade a Cristo originada numa transformação interna, cujo processo se dá por meio da interação intencional com a graça de Deus em Cristo. A obediência é resultado essencial da formação espiritual cristã (Jo 13:34-35; 14:21).
A manifestação externa da "semelhança com Cristo" não é, porém, o foco do processo e, quando ela se torna a ênfase principal, o processo certamente fracassará, incorrendo em legalismo e paroquialismo mortal. Foi o que ocorreu com muita freqüência no passado, criando a principal barreira para a sincera aceitação da formação espiritual cristã em nossos dias. Sabemos agora que os modos característicos de vestimenta, comportamento e organização não são de fato o ponto.
O "externalismo", como poderíamos chamar, foi um perigo até mesmo nos tempos do Novo Testamento. Mas "que Cristo seja formado dentro de você" é o lema eterno da formação espiritual cristã (Gl 4:19, PAR). Esse propósito é fortalecido pela profunda moral e pelo discernimento espiritual de que, enquanto "a letra da lei mata, o espírito vivifica" (2Co 3:6, PAR).
Para uma breve ilustração, lembremos que os ensinamentos de Jesus no Sermão do Monte (Mt 57) se referem a vários comportamentos errados: demonstrar raiva, cobiçar, divórcio insensato, manipulação verbal, pagar o mal com o mal e assim por diante.7 Mas, como toda a experiência ensina, apenas o esforço para agir em conformidade com tais orientações, em vez de viver de coração no reino de Deus, é como tentar o impossível. E, além disso, levará o indivíduo a fazer coisas obviamente erradas e mesmo ridículas — por exemplo, a autocastração como suposto ato de devoção a Cristo, o que infelizmente aconteceu repetidas vezes na história cristã.
A interpretação "externa" da formação espiritual, enfatizando atos específicos em sua realização, somente aumentará "a `justiça' do escriba e do fariseu". Tal formação não vai "além" (Mt 5:20, PAR), como é nosso dever, em direção à genuína transformação por completo de quem eu sou — homem ou mulher de Cristo —, para se viver ricamente em seu reino.
Um caminho de graça e descanso
Os instrumentos para a formação espiritual cristã implicam, portanto, algo muito além do esforço humano e de ações sob nosso controle. O esforço humano bem informado certamente é indispensável, pois a formação espiritual não é um processo passivo. Mas a semelhança com o ser interior de Cristo não é um feito humano. Ela é, enfim, um dom da graça.
Embora devamos agir, os recursos para a formação espiritual vão muito além do humano. Eles vêm da presença interativa do Espírito Santo na vida daqueles que depositam sua confiança em Cristo. Os recursos também vêm dos tesouros espirituais — pessoas, eventos, tradições, ensinamentos — armazenados no corpo do povo de Cristo na terra, no passado e no presente.
Desse modo, devemos entender a formação espiritual não apenas como formação do espírito ou do ser interior do indivíduo, embora esta seja tanto o processo quanto o resultado, mas também como formação pelo Espírito de Deus e pelas riquezas espirituais da contínua encarnação de Cristo em seu povo — incluindo, de forma mais proeminente, os tesouros de sua palavra escrita e falada e as personalidades extraordinárias nas quais o Mestre viveu mais plenamente.
A formação espiritual é, na prática, o caminho de descanso para o cansado e sobrecarregado, do jugo fácil e do fardo leve (Mt 11:28-30), da limpeza do interior do copo e do prato (Mt 23:26), da árvore boa que não pode dar fruto ruim (Lc 6:43). E é o caminho ao longo do qual os mandamentos de Deus não são considerados pesados, nem "penosos" (1Jo 5:3).
É o caminho dos que estão aprendendo como os discípulos ou aprendizes de Jesus Cristo "a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei", dentro do contexto de seu "foi-me dada toda a autoridade nos céus e na terra" e "eu estarei sempre com vocês" (cf. Mt 28:18,20).
Mas — volto a dizer porque é muito importante — a "aprendizagem" básica aqui não é sobre como agir, do mesmo modo que o erro ou o problema básico na vida humana não está no que fazemos. Muitas vezes, o que os seres humanos fazem é tão horrível que podemos, talvez, ser desculpados por acreditar que tudo o que importa é impedi-los. Mas se trata, então, de uma fuga do verdadeiro horror: o coração de onde as ações terríveis vêm. Em ambos os casos, é o que somos — em pensamentos, sentimentos, disposições e escolhas — na vida interior o que conta. A profunda transformação ali é a única coisa que pode definitivamente vencer o mal exterior.
É muito difícil manter essa diretriz. O fracasso em fazê-lo é a causa primária do fracasso em crescer espiritualmente. O amor, nós sabemos, é paciente e bondoso (1Co 13:4). Então tentamos equivocadamente amar, agindo de modo paciente e bondoso — e, logo, falhamos. Devemos sempre fazer o melhor que pudermos na ação, é claro, mas pouco progresso será conquistado nessa arena até progredirmos no amor em si — uma genuína prontidão interna e o desejo de assegurar o bem dos outros. Enquanto não fizermos um progresso significativo ali, nossa paciência e bondade serão rasas e efêmeras, na melhor das hipóteses.
É o amor em si — não o comportamento amoroso, ou mesmo o desejo ou intenção de amar — que têm o poder de "sempre proteger, sempre confiar, sempre esperar, suportar qualquer coisa e nunca desistir" (1Co 13:7-8, PAR). Simplesmente tentar agir de forma amorosa levará ao desespero e ao fracasso do amor. O que trará a raiva e a desesperança.
Mas a admissão do amor em si — o tipo de amor de Deus —, no profundo de nosso ser, por meio da formação espiritual, irá, ao contrário, nos permitir uma ação amorosa numa proporção que, a princípio, será surpreendente até a nós mesmos. E esse amor se tornará uma fonte constante de alegria e descanso para nós mesmos e para os outros. De fato será, segundo a promessa, "uma fonte de água a jorrar para a vida eterna" (Jo 4:14), não um fardo a mais a ser carregado pela vida, como seguramente seria o "agir de forma amorosa".
A oportunidade atual
Ao renovar a linguagem e a realidade da "formação espiritual' em nossos dias e ao abrir mais uma vez o caminho para a sua realização, o Espírito de Deus chama seu povo agora para viver a partir de uma base adequada à transformação do caráter, resultando em obediência e plenitude em Cristo. Isso é realmente algo diferente. O momento atual não é uma ocasião para se continuar fazendo as mesmas coisas que os cristãos estiveram fazendo no passado recente — exceto agora o que "realmente a formação significa". Está na hora de mudar nosso foco, individualmente e em nossos grupos cristãos.
Se o povo cristão entrar genuinamente para o Caminho do Coração de Cristo, os indivíduos encontrarão um modo seguro de se tornar o que foram destinados a ser: pessoas completamente boas e religiosas, completamente purgadas da arrogância, insensibilidade e auto-suficiência. As assembléias cristãs voltarão a ser como foram em muitas épocas do passado e o que o mundo desesperadamente pede hoje: incomparáveis escolas de vida — vida que é eterna agora em qualidade, bem como eterna em quantidade.
Uma situação possível porque o espírito e o ser interno do homem, assim como o processo de sua renovação em Cristo, é um reino ordenado, onde até mesmo na desordem da ruptura Deus oferece um caminho metódico de restabelecimento. A graça não descarta o método, nem o método, a graça. A graça prospera no método, e o método, na graça.
A formação espiritual em Cristo não é, portanto, um processo misterioso, irracional — até mesmo histérico —, algo como o clarão de relâmpago que brilha quando e onde quiser, senão em qualquer circunstância. Ou algo que nos é magicamente conferido como se estivéssemos no meio de curiosos rituais e práticas da Antigüidade. As experiências espirituais (Paulo na estrada de Damasco e outras) não constituem a formação espiritual, embora possam ser uma parte significativa dela, como por vezes ocorre.
Tal concepção, eu admito com tranqüilidade, é contrária à idéia da graça como uma passividade, conforme hoje é amplamente defendida. Mas a ordem estabelecida por Deus para a alma que se encontra sob a graça deve ser descoberta, respeitada e receber colaboração, caso se desejem atingir os resultados planejados por Deus para o crescimento espiritual.
A formação espiritual é algo que nós seres humanos podemos e devemos vivenciar — como indivíduos e em comunhão com outros aprendizes de Jesus. Enquanto ela é simultaneamente uma manifestação profunda da ação graciosa de Deus por sua Palavra e seu Espírito, também é algo pelo qual somos responsáveis perante Deus e que podemos procurar alcançar de maneira sensata, sistemática. O objetivo deste livro é, portanto, intensamente prático. Ele almeja ajudar os que estão "buscando o reino de Deus e sua justiça" para que, ao encontrá-los, possam vivê-los em sua plenitude. Nosso livro também espera ser útil aos líderes de grupos que pretendam com seriedade levar adiante todos os aspectos da Grande Comissão de Cristo, formando pessoas para fazer todas as coisas que o Mestre instruiu (Mt 28:18-20).
Por fim, esta obra se oferece a qualquer pessoa desejosa — explicitamente identificada como cristão ou não — como uma avenida para a bondade em Deus, a qual o coração busca por natureza. É um guia para todos os que desejam intensamente atingir a vida interior do próprio Jesus Cristo, permitindo a ele,
Do pecado me curar
E minha alma libertar.8
Questões para reflexão e discussão
1. Como você entende a promessa de Jesus sobre a "água" que ele nos oferece e pela qual nunca teremos sede novamente (Jo 4:14)? O que isso significa na prática para você e para outros do seu relacionamento?
2. Você pode definir com algum detalhe seu lado espiritual (não-físico)? E como esse lado afeta suas ações e sua vida? Tente aplicar sua definição para explicar o lado espiritual de um cristão exemplar e o de um terrorista condenado.
3. Você concorda ou discorda da idéia de que Jesus e seus aprendizes pretendem uma revolução mundial permanente pela transformação do caráter?
4. Pode-se afirmar que "espiritual" não significa necessariamente "algo bom"?
5. Compare a "formação espiritual" como uma realidade e projetos meramente humanos com a formação espiritual especificamente cristã.
6. Cite algumas das questões que têm orientado o atual e disseminado interesse pela formação espiritual, tanto na sociedade em geral quanto entre os cristãos?
7. Quais os perigos de uma interpretação "superficial" ou "externa" da formação espiritual? Como isso se relaciona com o legalismo?
8. O recente aparecimento da formação espiritual oferece uma oportunidade genuinamente nova para promover a causa de Cristo e abençoar a vida humana em nosso tempo?
Notas
1 Em meio a muitas incompreensões sobre Jesus, o historiador Will Durant ainda conseguiu captar corretamente o papel de Jesus como revolucionário do mundo: "Ele não estava interessado em atacar as instituições econômicas ou políticas existentes. [...] A revolução que ele buscava era mais profunda, sem a qual as reformas só poderiam ser superficiais e transitórias. Se ele pudesse limpar o coração humano do desejo egoísta, da crueldade e da luxúria, a utopia viria por si mesma e todas essas instituições que se erguem da ganância e violência humanas, e por isso necessitam de uma lei, desapareceriam. Considerando-se que essa seria a mais profunda de todas as revoluções, comparadas com a qual todas as outras seriam meros coups d'etat de classe derrubando classe e, então, explorando por seu turno, Cristo foi, nesse sentido espiritual, o maior revolucionário da história" (Caesar and Christ, New York: Simon and Schuster, 1944, p. 566). [Tradução em português: César e Cristo (Rio de Janeiro: Record, 1986)].
2 A primeira declaração tem um longo histórico escolar sobre tal assunto, mas está principalmente associada ao pensamento de Paul Tillich (cf. as p. 3 e 9 de Paul Bjorklund, What Is Spirituality?, Plymouth, MN: Hazelden Foundation, 1983). A segunda declaração é de Leo Booth, When God Becomes a Drug, Los Angeles: Tarcher Inc., 1991, p. 20. O que está em jogo aqui é o inexorável esforço dos seres humanos para se tornarem "espirituais" sem Deus. Nem mesmo o ateísmo explícito nos protegerá da inquietante necessidade de um acerto de contas com nosso lado espiritual. Em termos populares, a presença desse esforço constante se manifesta nas surpreendentes revistas dispostas nos caixas do supermercado e em pessoas como Oprah e Shirley MacLaine. Mas a coisa é muito mais profunda que isso pode fazer crer. Tais propostas e as ameaças que representam para o genuíno discipulado de Cristo serão discutidas com mais detalhes no capítulo 6.
3 Sobre esses assuntos confira, por exemplo, Pierre Hadot, Philosophy as a Way of Life: Spiritual Exercises from Socrates to Foucault, em Arnold I. Davidson (ed.), Cambridge, MA: Blackwell, 1995, e Martha C. Nussbaum, The Therapy of Desire: Theory and Practice in Hellenistic Ethics, Princeton, NY: Princeton University Press, 1994. Existe, é claro, um oceano de literatura no pensamento oriental sobre a formação do espírito humano.
4 Verso de um hino tradicional americano de autoria desconhecida. (N. da T.)
5 De acordo com o Newsweek, 16 de abril de 2001, p. 49. A ironia está no fato de que cada um dos 33.800 grupos se considerar o "certo".
6 Embora não pretendendo uma abordagem acadêmica neste livro, pode ser útil comparar nossas declarações sobre formação espiritual e espiritualidade com alguns outros autores, por exemplo, Richard P. McBrien, Lives of the Saints, San Francisco: HarperSanFrancisco, 2001, especialmente p. 18-19, e Francis A. Schaeffer, True Spirituality, Wheaton, IL: Tyndale, 1971, no caso, p. 16-17. Acreditamos que muitos problemas profundos, relativos à espiritualidade e à formação espiritual, podem ser esclarecidos pelo confronto entre o que é dito neste volume e as idéias destes e de outros autores.
7 Por favor, consulte meu livro A conspiração divina, São Paulo: Mundo Cristão, 2001, cap. 5, para uma explicação mais detalhada dos ensinos de Jesus sobre esses e outros assuntos relacionados.
8 O famoso hino do qual esses versos foram extraídos, "Rock of Ages", de Augustus Toplady, capta o que foi a compreensão do povo de Cristo através de grande parte de seu passado: que a redenção cristã envolve, numa unidade compacta, tanto o perdão da culpa pelos pecados quanto a libertação de nossa vida da dominação do pecado. Embora sejam distintos, ambos aspectos não eram, em nosso passado, geralmente pensados de modo separado, e, é claro, eles não são jamais separáveis. Recordem-se também as palavras do hino de Charles Wesley, "O for a Thousand Tongues", SH 211: "Ele quebra o poder do pecado derrotado, / Ele livra o prisioneiro; / O seu sangue pode limpar os mais sujos; / O seu sangue me abençoou" [tradução livre].
Aqueles que beberem da água que eu lhes der nunca mais terão sede. A água que eu lhes der se tornará neles uma fonte de água a jorrar para a vida eterna.
Jesus de Nazaré (João 4:14, PAR)1
Quando nos abrimos para os escritos do Novo Testamento, quando embebemos a mente e o coração em um dos evangelhos, por exemplo, ou em cartas como Efésios e 1Pedro, a impressão arrebatadora que vem sobre nós é que estamos diante de outro mundo e de outra vida: um mundo e uma vida divinos. É uma vida no "reino dos céus". No entanto, é um mundo e uma vida em que pessoas comuns entraram e estão entrando até hoje. É um mundo que parece aberto para nós e nos convida a entrar. Sentimos seu chamado.
As maravilhosas promessas aos que dedicam sua vida a esse mundo novo, por meio da fé em Jesus, saltam das páginas sobre nós. Por exemplo, lemos as palavras de Jesus: os que se entregarem a ele receberão "água viva", o Espírito do próprio Deus, que não os deixará ter sede novamente — serem dirigidos e governados por desejos insatisfeitos. Essa "água" se tornará uma fonte ou nascente de uma água "a jorrar para a vida eterna" (Jo 4:14, PAR). Na verdade, a fonte até se transformará em "rios de água viva", fluindo do centro da vida do fiel para um mundo sedento (Jo 7:38).
Ou então lemos a oração de Paulo em Efésios para que os cristãos possam "conhecer o amor de Cristo que excede o conhecimento, de forma que fiquem cheios de toda a plenitude de Deus [...] pelo poder que age dentro de nós e que pode realizar profusamente mais que tudo o que podemos pedir ou imaginar" (3:19-20, PAR). Ou as palavras de Pedro sobre quanto os que amam e confiam em Jesus "exultam com alegria indizível e gloriosa" (1Pe 1:8), com o "amor fraternal e sincero" emanando de seu coração (1:22), e libertam-se de "toda maldade,hipocrisia, inveja e toda espécie de maledicência" (2:1), silenciam os que zombam do Caminho de Cristo ao simplesmente fazer o que é certo (2:15) e lançam todas as ansiedades sobre Deus, porque ele cuida de nós (5:7).
A visão é clara, e ninguém aberto a ela pode se enganar sobre seu significado. Mas, apesar de tudo ser claro e desejável, devemos admitir que, em muitos períodos históricos, assim como hoje, os cristãos em geral apenas encontram o caminho por essa vida divina de forma lenta e com grande dificuldade, quando o encontram.
Creio que uma das razões pelas quais as pessoas de fato falham em se aprofundar nas palavras do Novo Testamento, chegando a negligenciá-las ou até mesmo a evitá-las, é que a vida que vêem ali é muito diferente da que conhecem por experiência. Isso é verdade ainda que possam ser bastante fiéis à sua igreja, nas formas prescritas, e que realmente tenham Jesus como única esperança. Portanto, a clara apresentação da vida no Novo Testamento, que nos é oferecida em Cristo de forma inequívoca, somente as desencoraja ou lhes tira a esperança.
Por que isso acontece? Certamente a vida que Deus nos oferece em Cristo Jesus não foi planejada para ser um enigma insolúvel! O que nos deixa apenas com a explicação de que, apesar de nossas boas intenções e métodos enérgicos, não nos aproximamos e recebemos aquela vida do modo correto. Não compreendemos e transmitimos a sabedoria de Jesus e da Bíblia sobre o ser humano e sua redenção através da graça, libertando-o dos poderes destrutivos que se apossam dele em todas as suas dimensões básicas.
Não é de fato verdade que onde existe vontade existe automaticamente um caminho, embora naturalmente a vontade seja essencial. Também é necessário um entendimento do que, de modo exato, precisa ser feito e de como pode ser realizado, dos instrumentos para a realização daquela vida e da condição correta de seu usufruto.
A formação espiritual em Cristo é um processo ordenado. Embora Deus possa triunfar na desordem, esta não é sua escolha. E em vez de nos fixarmos no que Deus pode fazer, devemos nos humilhar para aceitar os modos que ele escolheu para trabalhar conosco, os quais estão claramente dispostos na Bíblia e, em especial, nas palavras e na pessoa de Jesus.
Ele nos convida a deixar nossos caminhos penosos do trabalho pesado — particularmente o "religioso" — e tomar o jugo de sua instrução. Esse é um caminho de bondade e humildade, um caminho de descanso para a alma. É um caminho de transformação interna, em que tomar seu jugo e levar seu fardo, com ele, provam ser uma vida leve e suave (Mt 11:28-30). A distância e a dificuldade percebidas para entrar por completo no mundo divino e em sua vida se devem inteiramente ao nosso fracasso em compreender que "o caminho interno" é o caminho de uma transformação interior geral, e também ao nosso fracasso em dar os pequenos passos que tranqüila e certamente levam a ele.
Eis a compreensão auspiciosa, redentora da vida. Para o indivíduo, isso significa que todos os obstáculos que nos impedem de despir a velha pessoa e vestir a nova podem ser removidos ou dominados. E tal condição nos permitirá andar cada vez mais na totalidade, na santidade e no poder do reino dos céus. Ninguém precisa viver derrotado espiritual e pessoalmente. Uma vida de vitória sobre o pecado e as contingências é acessível a todos.
Com relação a nossos grupos cristãos e seus líderes, significa que há um modo simples, direto, em que as congregações do povo de Jesus podem, sem exceção, cumprir seu chamado para ser uma ekklesia, seus "eleitos": um ponto de contato entre céu e terra, em que a cura oferecida pela cruz e pela ressurreição podem salvar o perdido e desenvolver o salvo para a plenitude de seres humanos em Cristo. Não é necessário habilidade, projeto, talento ou técnica — nem mesmo se exige um orçamento —, apenas fidelidade ao processo de formação espiritual conforme Cristo expôs nas Escrituras e na vida do ""povo particularmente seu" ao longo das eras (Tt 2:14).
Introdução à formação espiritual
O "além interior" e o Caminho de Jesus
Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida.
Provérbios 4:23
Vivemos a partir de nosso coração. A parte de nós que impulsiona e organiza nossa vida não é o físico (o que permanece verdadeiro mesmo se o negarmos). Você possui um espírito dentro de si que foi formado. Ele adquiriu um caráter específico. Eu tenho um espírito e ele foi formado. Isso é válido para todos.
O espírito humano é um aspecto inevitável e fundamental de todo ser humano. Ele adquire seu caráter, qualquer que seja, das experiências vividas e das escolhas feitas no passado. É isso o que significa ser "formado".
Nossa vida e a forma como percebemos o mundo agora e no futuro é, quase totalmente, um simples resultado daquilo que nos tornamos na profundeza de nosso ser (espírito, vontade ou coração). De lá vemos nosso mundo e interpretamos a realidade. De lá fazemos nossas escolhas, partimos para a ação, tentamos mudar nosso mundo. Vivemos a partir de nossa profundidade — a maior parte da qual não compreendemos.
"Você quer dizer", alguns dirão, "que os desastres individuais e coletivos que preenchem a cena humana não são impostos a nós de fora? Que eles não nos acontecem simplesmente?". Sim. É isso o que quero dizer. No mundo de hoje, fome, guerra e epidemia são quase totalmente resultados de escolhas humanas, que são expressões do espírito humano. Embora várias qualificações e explicações sejam necessárias, isso é, em geral, verdadeiro.
Os desastres individuais também em grande parte se seguem às escolhas humanas, as nossas ou as dos outros. Ocorram ou não numa forma específica, as situações nas quais nos encontramos nunca são tão importantes quanto nossas respostas a elas, as quais vêm de nosso "lado espiritual". Um coração cuidadosamente cultivado irá, auxiliado pela graça de Deus, prever, evitar ou transformar a maioria das situações dolorosas, diante das quais outros se erguem como crianças desamparadas perguntando: "Por quê?".
A Bíblia está repleta de sabedoria sobre tais questões. É por isso que chamamos os principais livros do Antigo Testamento de "literatura de sabedoria". E Jesus resume todos em seus ensinamentos. Ele é o poder e a sabedoria de Deus (1Co 1:24). Por exemplo, o Mestre nos diz: "Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais lhes será dado" (Mt 6:33, PAR). E:
... quem ouve estas minhas palavras e as pratica é como um homem prudente que construiu a sua casa sobre a rocha. A chuva caiu e os rios transbordaram, e os ventos sopraram e deram contra aquela casa, e ela não caiu, pois foi construída na rocha.
Mateus 7:24-25, PAR
Dessa forma, a maior necessidade que você e eu temos — a maior necessidade da humanidade como um todo — é a renovação de nosso coração. O lugar espiritual dentro de nós, de onde vem nossa perspectiva, nossas escolhas e ações, foi formado por um mundo distanciado de Deus. Agora ele precisa ser transformado.
Realmente, a única esperança da humanidade reside no fato que, do mesmo modo como nossa dimensão espiritual foi formada, ela também pode ser transformada. Agora e ao longo dos tempos, a necessidade foi reconhecida por todos os que pensaram com profundidade sobre nossa condição — desde Moisés, Salomão, Sócrates e Espinosa, até Marx, Nietzsche, Freud, Oprah e as atuais feministas e os ecologistas. Nós, com todo o acerto, pregamos continuamente de nossos púlpitos a respeito de tal possibilidade e necessidade. As discordâncias só aparecem quando se indica o que em nosso espírito precisa ser mudado e como tal mudança pode ser efetuada.
A revolução de Jesus
E nesses dois pontos repousa a inevitável relevância de Jesus para a vida humana. Há cerca de dois mil anos, ele reuniu seu pequeno grupo de amigos e discípulos nas encostas da Galiléia e os enviou para "ensinar todas as nações" — isto é, fazer alunos (aprendizes) para ele de todos os grupos étnicos. Seu objetivo é, conseqüentemente, colocar sob a direção de sua sabedoria, sua bondade e seu poder toda a vida humana, como parte do plano eterno de Deus para o universo.
Não devemos errar neste assunto. Ao enviar assim seus seguidores, ele pôs em ação uma revolução mundial perene: uma que ainda está em curso e continuará até que a vontade de Deus seja feita na terra como é no céu. Quando a revolução atingir seu ápice, todas as forças do mal conhecidas pela humanidade serão derrotadas e a bondade de Deus será conhecida, aceita e alegremente adaptada a cada aspecto da vida humana.1 Ele escolheu realizar isso com seus discípulos e, em parte, por intermédio deles.
É ainda hoje verdadeiro, conforme o serafim angelical proclamou na visão de Isaías, que "a terra inteira está cheia da sua glória", a glória do santo Senhor dos exércitos (Is 6:3). Mas ainda está por vir o dia em que "a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas enchem o mar" (Hb 2:14).
A revolução de Jesus é em primeiro lugar e permanentemente uma revolução do coração ou espírito humano. Ela não nasceu e não nasce do estabelecimento de instituições sociais e de leis, da forma externa de viver, supondo-se que essas poderiam impor então uma boa ordem na existência das pessoas que vivem sob seu poder. Antes, o propósito de Jesus é uma revolução do caráter, que se processa pela mudança das pessoas a partir de seu interior, por uma contínua relação pessoal com Deus em Cristo e com os outros. É uma revolução que muda as idéias, as crenças, os sentimentos e os modos de escolha, bem como as tendências corporais e as relações sociais. Ela penetra nas camadas mais profundas da alma. As organizações sociais externas podem ser úteis para esse fim, mas não são o fim, nem são a parte fundamental dos meios.
Em contrapartida, a partir das profundezas da pessoa divinamente renovadas, as estruturas sociais serão transformadas de modo natural, de forma que "corra a retidão como um rio, a justiça como um ribeiro perene" (Am 5:24). Tais ribeiros não podem fluir por meio de almas corrompidas. Reciprocamente, a pessoa renovada "por dentro" não cooperará com evidentes ribeiros de injustiça. Ela irá barrá-los — ou morrer tentando. É a única coisa que se pode fazer.
T. S. Eliot certa vez descreveu o atual empenho humano como a tentativa de encontrar um sistema de ordem tão perfeito que não teríamos de ser bons. O Caminho de Jesus nos diz, ao contrário, que qualquer tipo de sistema — nem todos, na verdade — funcionará bem se formos genuinamente bons. E somos então livres para buscar o melhor e o superior.
A impotência dos "sistemas" é a principal razão pela qual Jesus não mandou seus discípulos iniciar governos ou até mesmo igrejas como as que conhecemos hoje, que sempre carregam fortemente alguns elementos de um sistema humano. Eles deveriam, ao contrário, estabelecer postos avançados de sua pessoa, sua palavra e seu poder no meio de uma humanidade fracassada e fútil. Eles deviam trazer a presença do reino e de seu Rei em cada recanto da vida humana simplesmente por viverem por completo no reino e com ele.
Aqueles que o receberam como seu Senhor vivo e permanente instrutor se tornaram o "povo escolhido de Deus, santo e amado" (Cl 3:12) e aprenderam como ser "puros e irrepreensíveis, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração corrompida e depravada, na qual brilham como estrelas no universo, erguendo a palavra da vida" (Fp 2:15-16, PAR).
As igrejas — pensando agora nas congregações locais desse povo — seriam naturalmente o resultado. As igrejas não são o reino de Deus, mas são expressões primárias e inevitáveis, postos avançados e instrumentalidades da presença do reino entre nós. Elas são "sociedades" de Jesus, surgindo em Jerusalém, na Judéia, em Samaria e até nos confins da terra (At 1:8), conforme a realidade de Cristo é posta em contato com a vida humana comum. Esse é um processo contínuo, mas contudo não completado até hoje: "E este evangelho do Reino será pregado em todo o mundo como testemunho a todas as nações, e então virá o fim" (Mt 24:14).
O "interior" humano
Pela presença de seu reino, Jesus responde às mais profundas necessidades de justiça, subsistência e propósitos existentes na personalidade humana. Mesmo que o ignoremos, ainda teremos de enfrentar as inevitáveis questões: O que faz nossa vida ser como é? O que a faria ser como deveria? A incapacidade de encontrar respostas adequadas nos deixa desorientados em meio à enxurrada de eventos que nos envolve, e à mercê de quaisquer idéias e forças que se abatam sobre nós. O que é, basicamente, a situação humana. Você pode ver isso dia após dia ao seu redor.
No entanto, os pensadores ao longo do tempo procuraram responder a essas indagações, e eles descobriram de forma unânime que o mais importante, con forme já declarado, a respeito de como a vida é e de como deveria ser está naquilo que somos por "dentro". Coisas boas e ruins nos acontecerão, com toda a certeza. Mas o que vale nossa vida, ao menos para os que alcançaram a maioridade, é, em grande parte, se não completamente, uma questão do que nos tornamos no interior. Esse "interior" é a arena da formação espiritual e, depois, da transformação.
No interior estão nossos pensamentos, sentimentos e nossas intenções — e suas fontes mais profundas, quaisquer que sejam. A vida que levamos em nossos momentos, nossas horas, nossos dias e anos, nasce de uma profundidade oculta. O que está em nosso "coração" importa mais que qualquer outra coisa para aquilo em que nos tornamos e para o que nos acontece. "Você está aqui em meus braços", diz a velha canção, "mas onde está seu coração?". É isso o que de fato importa, não apenas para as relações individuais, mas também para a vida como um todo.
O escritor Oscar Wilde observou certa vez que por volta dos quarenta anos cada um tem a face que merece. Isso é de fato profundo, apesar de doloroso, verdadeiro. E realmente se aplica ao "interior" expresso pela face — ao coração e também à alma —, não meramente à face como uma área superficial do corpo. Caso contrário, não teria muita importância.
Ora, justamente na superfície perceptível de nosso "mundo interior" repousa alguns de nossos pensamentos, sentimentos, nossas intenções e nossos planos. Trata-se daqueles dos quais temos consciência. Eles podem ser bastante óbvios aos outros, bem como a nós mesmos. Em seus termos, conscientemente expomos nosso mundo e nossas ações dentro deste.
Mas esses aspectos superficiais também são uma boa indicação da natureza geral da "profundidade espiritual interior" inconsciente, de que tipo de coisas ela é composta. Mas os pensamentos, os sentimentos e as intenções de que temos consciência são, afinal de contas, apenas uma pequena parte daqueles que estão realmente lá em nossa profundidade; e eles muitas vezes não são os mais reveladores de quem na verdade somos e do por quê fazemos o que fazemos.
O que realmente pensamos, como realmente nos sentimos e o que realmente faríamos em circunstâncias previstas e imprevistas pode ser totalmente desconhecido de nós ou de outros próximos a nós. Podemos passar uns pelos outros — até mesmo passar por nós, se você puder imaginar isso — como "navios na noite". Fazemos isso o tempo todo.
A dimensão oculta de cada vida humana não é visível aos outros, nem é completamente alcançável até para nós. Em geral sabemos muito pouco sobre as coisas que se passam em nossa alma, o nível mais profundo de nossa vida, ou sobre o que a está guiando. Nosso "interior" é incrivelmente complexo e sutil — até mesmo tortuoso. Ele leva uma vida própria. Somente Deus conhece nossas profundezas, o que somos e o que faríamos.
Assim o salmista clama a ajuda de Deus ao precisar lidar... consigo mesmo! "Sonda-me, ó Deus". "Que as meditações do meu coração sejam agradáveis a ti". "Renova dentro de mim um espírito justo". Num certo ponto, meu "além interior" (meu coração) foi formado e estou, portanto, à sua mercê. Somente Deus pode me salvar.
O aspecto "espiritual" do homem
Já falei do mundo recôndito do eu como nosso lado espiritual. As expressões "espiritual", "espírito" e "espiritualidade" têm se tornado cada vez mais comum nos dias de hoje, o que não pode ser evitado. Mas elas possuem freqüentemente um significado obscuro, e isso pode ser perigoso. Os termos podem nos levar a caminhos de confusão e destruição. "Espiritual" não é automaticamente "bom". Precisamos ter muito cuidado com tal linguagem. No entanto, sob o sentido de "espiritual", que significa simplesmente "não-físico", o mundo oculto ou interno do eu humano é de fato espiritual.
É interessante que, apesar dos grandes avanços em conhecimento científico — o esplêndido produto do pensamento humano —, esses progressos nada dizem sobre a vida interior do ser humano. O mesmo vale para os campos de estudo que tentam se basear em tal conhecimento. No máximo, as ciências podem indicar algumas correlações fascinantes e importantes entre nossa vida interna e os eventos no mundo físico e social à nossa volta.
Isto ocorre porque a matéria das ciências é, com precisão, o mundo exterior, físico, mensurável, imediatamente perceptível: grosso modo, o mundo "dos cinco sentidos", conforme dizemos com freqüência. Por sua natureza, o físico é um tipo de realidade diferente por completo do lado espiritual do ser humano, que permanece "oculto" de um modo que não ocorre com o mundo físico. Trata-se sem dúvida de uma história antiga, mas não raro reprimida ou esquecida. A ciência não percebe o coração.
Paradoxalmente, nosso "lado espiritual" — embora não seja perceptível aos sentidos e nunca possamos de nenhuma forma compreendê-lo por inteiro — nunca está de maneira integral ausente de nossa mente. Ele sempre permanece na margem da consciência, quando não no centro. Na verdade, é a única coisa celebrada (ou degradada) nas artes, na biografia e na história, na maioria dos escritos populares em revistas e outras mídias. Sua ênfase está continuamente no que as pessoas pensam e sentem, no que podem ou devem fazer e por que e que tipo de caráter possuem. Os seres humanos "fofocam" sobre qualquer coisa, e muito daquilo que é chamado de "notícia" é na verdade apenas fofoca.
Mas isso só enfatiza quanto estamos sempre conscientes do lado espiritual da vida. Sabemos imediatamente o que realmente importa. Prestamos mais atenção em tal aspecto — em nós mesmos e nos outros — que em qualquer outra coisa. E há uma profunda sabedoria nisso, ainda que muitas vezes deturpada. Pois o espiritual simplesmente é nossa vida, não importa as grandes teorias que defendamos ou o que dizemos ao tentarmos ser "intelectuais", "bem informados" ou "atualizados".
Esse interesse inesgotável explica por que nas últimas décadas e de muitas formas o espiritual, no sentido humano abrangente, tem repetidamente se colocado na vanguarda de nossa consciência. Das revoluções culturais e artísticas dos anos 1960 aos ambientalismos e inúmeras "espiritualidades" dos anos 1990 — desde a cultura pop, new age, até os pós-modernismos da academia —, a expansão dos protestos vindos das profundezas humanas tem nos últimos tempos gritado para nós que o lado físico e evidente do universo humano não pode sustentar nossa existência. "Nem só de pão viverá o homem". Fazemos bem em ouvir, não importa quem esteja falando.
Estas são, é claro, palavras de Jesus. E seu caminho é verdadeiramente o caminho do coração, ou do espírito. Se andarmos com ele, devemos andar por esse nível interior. Aliás, bem poucos não compreendem tal verdade sobre o Mestre. Ele nos salva pela verdadeira restauração do coração para Deus e, então, habita ali com seu Pai, por meio do inconfundível Espírito divino. O coração assim renovado e habitado é a única verdadeira esperança da humanidade.
A declaração "nem só de pão viverá o homem" foi adaptada por Jesus Cristo da história da experiência judaica com Deus. Jesus foi, entre outras coisas, a expressão mais profunda e poderosa dessa experiência, que, porém, ainda recebeu um novo e profundo significado por sua morte e ressurreição. Através desses eventos, o Senhor estabeleceu uma ordem radicalmente nova de vida sobre a terra, no interior do reino de Deus. Uma vida livre de qualquer específica forma étnica ou cultural. Todos os seres humanos podem agora viver a vida do coração renovado, alimentando-se constantemente de presença pessoal de Jesus — agora, aqui em nosso mundo, para além de sua morte e da nossa.
Ao contrário do que muitos dizem, nossa libertação (salvação) não surge das obscuras profundidades humanas, das quais brota nossa vida natural — contenha ela ou não uma "realidade suprema" ou uma "inconsciência coletiva". Jesus, porém, age nessas mesmas profundidades e por seu intermédio, independentemente do seu conteúdo, para nos levar a Deus. Ali, também, ele é o Mestre. A renovação espiritual e a "espiritualidade" que vêm de Jesus são nada menos que a invasão da realidade humana natural por uma vida sobrenatural, vinda "do alto".
Espiritualidade e formação espiritual como meramente humanos
Em acentuado contraste, espiritualidade e formação espiritual são muitas vezes entendidas como questões completamente humanas. O "além interior" é considerado uma dimensão ou poder humano que, bastando apenas administrá-lo corretamente, transformará nossa vida em vida divina. Ou ao menos nos libertará do caos e das fraturas da existência humana — no mínimo, talvez, dos hábitos destruidores da vida, como álcool, trabalho, sexo, drogas ou violência. Somos tragados por livros, programas e seminários que se baseiam em semelhante hipótese.
Assim, por exemplo, ouve-se agora a "espiritualidade" descrita como "nossa relação com tudo o que é mais importante em nossa vida". Ou talvez como "o processo de se tornar uma pessoa positiva e criativa". Essas são palavras extraídas de textos contemporâneos e representam correntes profundas do pensamento e da cultura humanos.2
Certamente não pretendemos zombar de algo que seja bom, e verdadeiramente somos gratos por tudo o que ajuda os seres humanos em sua desesperada vida da terra. Nada seria mais compatível com o espírito de Jesus. O permanente amor de Deus se estende a qualquer ser humano que uma vez já tenha existido, às vezes em lugares e situações que o próprio Deus não lhe desejaria, mas que tenha produzido coisas boas. Mas é uma questão de fato se uma espiritualidade ade quada às necessidades humanas, capaz de produzir uma renovação genuína do coração, pode ou não ser o resultado de meras habilidades do homem. Equivocar-se sobre tal assunto acarretará conseqüências de grave natureza.
Em todo o caso, podemos estar certos disto: a formação e, depois, a transformação da vida interior, a partir da qual a existência exterior flui, são problemas humanos dos quais não se pode escapar. A formação espiritual, sem considerar nenhum contexto religioso ou nenhuma tradição específicos, é o processo pelo qual o espírito ou a vontade humana recebe uma "forma" ou caráter definido. É um processo comum a todo o mundo. A mais desprezível, bem como a mais admirável das pessoas, recebeu uma formação espiritual. Terroristas e santos são o resultado de sua formação espiritual. Seu espírito ou coração foi formado. Ponto.
Cada um de nós se torna um certo tipo de pessoa no profundo de seu ser, adquirindo um tipo específico de caráter. É o resultado de um processo de formação espiritual, entendido em termos humanos gerais que se aplicam a todos, quer se deseje quer não. Afortunados ou abençoados são os capazes de descobrir ou se deparar com um padrão de vida que formará seu espírito e seu mundo interior de um modo que sejam verdadeiramente fortes, bons e dirigidos para Deus.
A formação e reforma da vida interna são, portanto, um problema que vem sendo experimentado, tão antigo quanto a humanidade, e os mais remotos registros do pensamento humano oferecem eloqüentes testemunhos da luta para solucioná-lo3 — mas com sucesso muito limitado, é preciso que se diga.
De fato, alguns momentos da história humana alcançaram mais sucesso na elevação do espírito humano do que outros. No entanto, a quantidade de insucessos excede muito o número dos bons resultados, e a média é desanimadoramente baixa. As sociedades do mundo à nossa volta enfrentam atualmente desesperadores dilemas ao tentar produzir pessoas que sejam apenas capazes de lidar com sua vida na terra de modo não-destrutivo. O que é tão verdadeiro para as Américas e a Europa quanto para o restante do mundo, embora a luta tome superficialmente formas diferentes em várias áreas. Em questões espirituais não existe na realidade "Terceiro Mundo". Tudo é "Terceiro Mundo".
Indo além do meramente humano
Assim, a transformação espiritual, a renovação do coração, é um problema inevitável sem solução humana. Não temos nenhuma satisfação em afirmar essa questao. É algo que pode ser aprendido pesquisando a história do mundo, as diversas culturas e os esforços passados e presentes para tratar com vida humana por meio da religião, educação, lei e medicina. E tal observação infelizmente permanece firme quando levamos em conta as muitas técnicas ensinadas nas várias psicologias e espiritualidades concorrentes de nossos dias.
A transformação genuína do indivíduo como um todo, em direção à bondade e ao poder vistos em Jesus e no "Aba" Pai — a única transformação adequada para o eu —, continua sendo o objetivo necessário da vida humana. Mas ela se encontra além do alcance de programas de transformação interior que se utilizam do meramente humano — mesmo quando o próprio espírito do homem é tratado como essencialmente divino.
A realidade de tudo isso está atualmente oculta pelo baixíssimo nível da vida espiritual, em razão da forma como o cristianismo se apresenta hoje diante do público em geral. O baixo nível explica por que há tantas psicologias e espiritualidades competindo nessa área — não raro conduzidas ou dominadas por ex-cristãos que abandonaram as formas reconhecidas de cristianismo por acreditá-las sem esperança ou até mesmo prejudiciais.
Recentemente, porém, um grande e abrangente interesse na formação espiritual, sob esse mesmo nome, surgiu entre muitos grupos de cristãos e seus líderes. Por quê? Principalmente devido a uma percepção — confirmada então por muitos estudos amplos e cuidadosos, bem como por uma esmagadora evidência bastante expressiva — de que o cristianismo, em suas formas públicas, costumeiras e atuais, não tem dado respostas eficazes às questões vitais da existência humana. Ao menos não para extensas camadas dos que se identificam como cristãos e, obviamente, de não-cristãos. E a formação espiritual se apresenta agora como uma esperançosa possibilidade de responder ao clamor, à necessidade não satisfeita da alma humana. A esperança nasce uma vez mais em resposta à necessidade que é, ao mesmo tempo, profundamente enraizada nas tradições cristãs e poderosamente relevante às circunstâncias da vida contemporânea.
Deus avança
Deus periodicamente age sobre seu povo e a cultura que o cerca para alcançar seus propósitos eternos naquela minúscula extensão de tempo cósmico que chamamos "história humana". O que em geral ocorre de um modo que ninguém, exceto ele, poderia ter planejado ou previsto, e de uma forma que está muito além de nosso controle ou compreensão.
Descobrimos, normalmente depois do fato, que uma mudança penetrante e poderosa aconteceu. Uma mudança que pode se dar no indivíduo, no grupo ou em toda uma cultura. Formas tradicionais de fazer as coisas perdem sua eficácia, ainda que tenham sido muito poderosas no passado. Em tais condições, surge o perigo muito real de nos colocarmos em oposição ao que Deus verdadeiramente está fazendo agora e projeta fazer no futuro. Muitas vezes perdemos a oportunidade de agir com Deus no momento presente. Falhamos em encontrar, com a devida rapidez, o odre novo para o novo vinho.
Uma nova manobra de Deus ocorreu com o surgimento do povo hebreu vindo do Egito, "quando chegou a plenitude do tempo", e de novo com a sua ida para o exílio babilônico e, depois, seu retorno de lá. E ainda, vemos o movimento divino no surgimento do povo "cristão" dentro da cultura judaica e, então, o nascimento de um "corpo de Cristo" não-étnico a partir da igreja judaica.
Desde então, os movimentos penetrantes e poderosos de Deus têm acontecido continuamente e sempre durante essa curta permanência de Cristo em seu povo: a derrota do paganismo clássico, o surgimento da forma monástica de devoção cristã, os cistercienses, os franciscanos e as transformações da devotio moderna no monasticismo, a Reforma protestante, o pietismo, o wesleyanismo e o reavivamento estadunidense, além de muitos outros movimentos similares de menor impacto histórico, como as rebeldias contraculturais carismáticas do século XX (o "Povo de Jesus" e outras). O surgimento e o fortalecimento de tais movimentos são claramente o resultado da mão de Deus em nossa vida.
E Deus ainda está agindo. A busca pela formação espiritual (na verdade, conforme indicado, pela transformação espiritual) é de fato antiqüíssima e universal. Ela está arraigada na profunda necessidade pessoal, e até mesmo biológica, de bondade que assombra a humanidade. Ela tomou muitas formas e voltou agora à tona, no início do século XXI, para se encontrar com nossa atual situação. Um processo que, tenho certeza, é parte de uma maré de vida divina que hoje sobe para erguer nossa vida em uma viagem à eternidade. Nosso coração clama: "Senhor, eu quero ser um cristão em meu coração".4
Assim, essa busca, atualmente tão profundamente experimentada, é ao mesmo tempo nova e muito antiga, tão promissora quanto cheia de perigo, iluminadora de nossas falhas e fracassos, e repleta de graça, uma expressão da eterna procura de Deus pelo homem e da necessidade irremovível que o homem tem de Deus. A busca contemporânea pela formação espiritual é essencial à vida de Deus em seu povo, à medida que este agora se move em direção ao cumprimento dos propósitos divinos, para hoje e para o futuro.
Visto da perspectiva sociológica e histórica, bem como espiritual, o novo impulso é um aspecto da dissolução do sectarismo protestante, como nós o conhecemos, e do surgimento de uma nova — mas também antiga — identidade para os cristãos: a intersecção de todas as linhas denominacionais e fronteiras nacionais e naturais.
Hoje, em geral, reconhece-se que a pergunta "Eu sou um cristão?" já não pode ser respondida de nenhum modo significativo pela menção de nomes ou símbolos denominacionais, étnicos ou nacionais. Existem atualmente 33.800 denominações cristãs diferentes na terra.5 É evidente que uma resposta adequada tem de ser mais profunda que nomear nossas associações religiosas; ela deve se referir ao que somos em nosso coração, diante de Deus, no profundo de nosso ser, sempre o centro da formação espiritual cristã.
Tal resposta sempre foi exigida "diante de Deus". Quem poderá negá-lo? Mas isso nem sempre foi reconhecido e enfatizado de forma adequada entre nós — especialmente no passado recente —, embora começamos a fazê-lo cada vez mais hoje. Essa mudança é uma coisa extremamente boa e um início altamente promissor a partir desse passado dos cristãos no mundo.
Formação espiritual especificamente cristã
Podemos dizer, em uma abordagem preliminar, que a formação espiritual cristã basicamente se refere a um processo guiado pelo Espírito, cujo objetivo é formar o mundo interior do eu humano de tal maneira que ele se torne semelhante ao ser interior do próprio Cristo.6 Em seguida, vamos examinar cuidadosamente o que tal declaração significa para os nossos dias. Mas podemos dizer desde o começo que, à medida que a formação espiritual em Cristo obtiver êxito, a vida exterior do indivíduo se transformará em uma expressão natural ou em um fluxo do caráter e dos ensinamentos de Jesus.
A formação espiritual cristã é focalizada completamente em Jesus. Seu objetivo é a obediência ou a conformidade a Cristo originada numa transformação interna, cujo processo se dá por meio da interação intencional com a graça de Deus em Cristo. A obediência é resultado essencial da formação espiritual cristã (Jo 13:34-35; 14:21).
A manifestação externa da "semelhança com Cristo" não é, porém, o foco do processo e, quando ela se torna a ênfase principal, o processo certamente fracassará, incorrendo em legalismo e paroquialismo mortal. Foi o que ocorreu com muita freqüência no passado, criando a principal barreira para a sincera aceitação da formação espiritual cristã em nossos dias. Sabemos agora que os modos característicos de vestimenta, comportamento e organização não são de fato o ponto.
O "externalismo", como poderíamos chamar, foi um perigo até mesmo nos tempos do Novo Testamento. Mas "que Cristo seja formado dentro de você" é o lema eterno da formação espiritual cristã (Gl 4:19, PAR). Esse propósito é fortalecido pela profunda moral e pelo discernimento espiritual de que, enquanto "a letra da lei mata, o espírito vivifica" (2Co 3:6, PAR).
Para uma breve ilustração, lembremos que os ensinamentos de Jesus no Sermão do Monte (Mt 57) se referem a vários comportamentos errados: demonstrar raiva, cobiçar, divórcio insensato, manipulação verbal, pagar o mal com o mal e assim por diante.7 Mas, como toda a experiência ensina, apenas o esforço para agir em conformidade com tais orientações, em vez de viver de coração no reino de Deus, é como tentar o impossível. E, além disso, levará o indivíduo a fazer coisas obviamente erradas e mesmo ridículas — por exemplo, a autocastração como suposto ato de devoção a Cristo, o que infelizmente aconteceu repetidas vezes na história cristã.
A interpretação "externa" da formação espiritual, enfatizando atos específicos em sua realização, somente aumentará "a `justiça' do escriba e do fariseu". Tal formação não vai "além" (Mt 5:20, PAR), como é nosso dever, em direção à genuína transformação por completo de quem eu sou — homem ou mulher de Cristo —, para se viver ricamente em seu reino.
Um caminho de graça e descanso
Os instrumentos para a formação espiritual cristã implicam, portanto, algo muito além do esforço humano e de ações sob nosso controle. O esforço humano bem informado certamente é indispensável, pois a formação espiritual não é um processo passivo. Mas a semelhança com o ser interior de Cristo não é um feito humano. Ela é, enfim, um dom da graça.
Embora devamos agir, os recursos para a formação espiritual vão muito além do humano. Eles vêm da presença interativa do Espírito Santo na vida daqueles que depositam sua confiança em Cristo. Os recursos também vêm dos tesouros espirituais — pessoas, eventos, tradições, ensinamentos — armazenados no corpo do povo de Cristo na terra, no passado e no presente.
Desse modo, devemos entender a formação espiritual não apenas como formação do espírito ou do ser interior do indivíduo, embora esta seja tanto o processo quanto o resultado, mas também como formação pelo Espírito de Deus e pelas riquezas espirituais da contínua encarnação de Cristo em seu povo — incluindo, de forma mais proeminente, os tesouros de sua palavra escrita e falada e as personalidades extraordinárias nas quais o Mestre viveu mais plenamente.
A formação espiritual é, na prática, o caminho de descanso para o cansado e sobrecarregado, do jugo fácil e do fardo leve (Mt 11:28-30), da limpeza do interior do copo e do prato (Mt 23:26), da árvore boa que não pode dar fruto ruim (Lc 6:43). E é o caminho ao longo do qual os mandamentos de Deus não são considerados pesados, nem "penosos" (1Jo 5:3).
É o caminho dos que estão aprendendo como os discípulos ou aprendizes de Jesus Cristo "a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei", dentro do contexto de seu "foi-me dada toda a autoridade nos céus e na terra" e "eu estarei sempre com vocês" (cf. Mt 28:18,20).
Mas — volto a dizer porque é muito importante — a "aprendizagem" básica aqui não é sobre como agir, do mesmo modo que o erro ou o problema básico na vida humana não está no que fazemos. Muitas vezes, o que os seres humanos fazem é tão horrível que podemos, talvez, ser desculpados por acreditar que tudo o que importa é impedi-los. Mas se trata, então, de uma fuga do verdadeiro horror: o coração de onde as ações terríveis vêm. Em ambos os casos, é o que somos — em pensamentos, sentimentos, disposições e escolhas — na vida interior o que conta. A profunda transformação ali é a única coisa que pode definitivamente vencer o mal exterior.
É muito difícil manter essa diretriz. O fracasso em fazê-lo é a causa primária do fracasso em crescer espiritualmente. O amor, nós sabemos, é paciente e bondoso (1Co 13:4). Então tentamos equivocadamente amar, agindo de modo paciente e bondoso — e, logo, falhamos. Devemos sempre fazer o melhor que pudermos na ação, é claro, mas pouco progresso será conquistado nessa arena até progredirmos no amor em si — uma genuína prontidão interna e o desejo de assegurar o bem dos outros. Enquanto não fizermos um progresso significativo ali, nossa paciência e bondade serão rasas e efêmeras, na melhor das hipóteses.
É o amor em si — não o comportamento amoroso, ou mesmo o desejo ou intenção de amar — que têm o poder de "sempre proteger, sempre confiar, sempre esperar, suportar qualquer coisa e nunca desistir" (1Co 13:7-8, PAR). Simplesmente tentar agir de forma amorosa levará ao desespero e ao fracasso do amor. O que trará a raiva e a desesperança.
Mas a admissão do amor em si — o tipo de amor de Deus —, no profundo de nosso ser, por meio da formação espiritual, irá, ao contrário, nos permitir uma ação amorosa numa proporção que, a princípio, será surpreendente até a nós mesmos. E esse amor se tornará uma fonte constante de alegria e descanso para nós mesmos e para os outros. De fato será, segundo a promessa, "uma fonte de água a jorrar para a vida eterna" (Jo 4:14), não um fardo a mais a ser carregado pela vida, como seguramente seria o "agir de forma amorosa".
A oportunidade atual
Ao renovar a linguagem e a realidade da "formação espiritual' em nossos dias e ao abrir mais uma vez o caminho para a sua realização, o Espírito de Deus chama seu povo agora para viver a partir de uma base adequada à transformação do caráter, resultando em obediência e plenitude em Cristo. Isso é realmente algo diferente. O momento atual não é uma ocasião para se continuar fazendo as mesmas coisas que os cristãos estiveram fazendo no passado recente — exceto agora o que "realmente a formação significa". Está na hora de mudar nosso foco, individualmente e em nossos grupos cristãos.
Se o povo cristão entrar genuinamente para o Caminho do Coração de Cristo, os indivíduos encontrarão um modo seguro de se tornar o que foram destinados a ser: pessoas completamente boas e religiosas, completamente purgadas da arrogância, insensibilidade e auto-suficiência. As assembléias cristãs voltarão a ser como foram em muitas épocas do passado e o que o mundo desesperadamente pede hoje: incomparáveis escolas de vida — vida que é eterna agora em qualidade, bem como eterna em quantidade.
Uma situação possível porque o espírito e o ser interno do homem, assim como o processo de sua renovação em Cristo, é um reino ordenado, onde até mesmo na desordem da ruptura Deus oferece um caminho metódico de restabelecimento. A graça não descarta o método, nem o método, a graça. A graça prospera no método, e o método, na graça.
A formação espiritual em Cristo não é, portanto, um processo misterioso, irracional — até mesmo histérico —, algo como o clarão de relâmpago que brilha quando e onde quiser, senão em qualquer circunstância. Ou algo que nos é magicamente conferido como se estivéssemos no meio de curiosos rituais e práticas da Antigüidade. As experiências espirituais (Paulo na estrada de Damasco e outras) não constituem a formação espiritual, embora possam ser uma parte significativa dela, como por vezes ocorre.
Tal concepção, eu admito com tranqüilidade, é contrária à idéia da graça como uma passividade, conforme hoje é amplamente defendida. Mas a ordem estabelecida por Deus para a alma que se encontra sob a graça deve ser descoberta, respeitada e receber colaboração, caso se desejem atingir os resultados planejados por Deus para o crescimento espiritual.
A formação espiritual é algo que nós seres humanos podemos e devemos vivenciar — como indivíduos e em comunhão com outros aprendizes de Jesus. Enquanto ela é simultaneamente uma manifestação profunda da ação graciosa de Deus por sua Palavra e seu Espírito, também é algo pelo qual somos responsáveis perante Deus e que podemos procurar alcançar de maneira sensata, sistemática. O objetivo deste livro é, portanto, intensamente prático. Ele almeja ajudar os que estão "buscando o reino de Deus e sua justiça" para que, ao encontrá-los, possam vivê-los em sua plenitude. Nosso livro também espera ser útil aos líderes de grupos que pretendam com seriedade levar adiante todos os aspectos da Grande Comissão de Cristo, formando pessoas para fazer todas as coisas que o Mestre instruiu (Mt 28:18-20).
Por fim, esta obra se oferece a qualquer pessoa desejosa — explicitamente identificada como cristão ou não — como uma avenida para a bondade em Deus, a qual o coração busca por natureza. É um guia para todos os que desejam intensamente atingir a vida interior do próprio Jesus Cristo, permitindo a ele,
Do pecado me curar
E minha alma libertar.8
Questões para reflexão e discussão
1. Como você entende a promessa de Jesus sobre a "água" que ele nos oferece e pela qual nunca teremos sede novamente (Jo 4:14)? O que isso significa na prática para você e para outros do seu relacionamento?
2. Você pode definir com algum detalhe seu lado espiritual (não-físico)? E como esse lado afeta suas ações e sua vida? Tente aplicar sua definição para explicar o lado espiritual de um cristão exemplar e o de um terrorista condenado.
3. Você concorda ou discorda da idéia de que Jesus e seus aprendizes pretendem uma revolução mundial permanente pela transformação do caráter?
4. Pode-se afirmar que "espiritual" não significa necessariamente "algo bom"?
5. Compare a "formação espiritual" como uma realidade e projetos meramente humanos com a formação espiritual especificamente cristã.
6. Cite algumas das questões que têm orientado o atual e disseminado interesse pela formação espiritual, tanto na sociedade em geral quanto entre os cristãos?
7. Quais os perigos de uma interpretação "superficial" ou "externa" da formação espiritual? Como isso se relaciona com o legalismo?
8. O recente aparecimento da formação espiritual oferece uma oportunidade genuinamente nova para promover a causa de Cristo e abençoar a vida humana em nosso tempo?
Notas
1 Em meio a muitas incompreensões sobre Jesus, o historiador Will Durant ainda conseguiu captar corretamente o papel de Jesus como revolucionário do mundo: "Ele não estava interessado em atacar as instituições econômicas ou políticas existentes. [...] A revolução que ele buscava era mais profunda, sem a qual as reformas só poderiam ser superficiais e transitórias. Se ele pudesse limpar o coração humano do desejo egoísta, da crueldade e da luxúria, a utopia viria por si mesma e todas essas instituições que se erguem da ganância e violência humanas, e por isso necessitam de uma lei, desapareceriam. Considerando-se que essa seria a mais profunda de todas as revoluções, comparadas com a qual todas as outras seriam meros coups d'etat de classe derrubando classe e, então, explorando por seu turno, Cristo foi, nesse sentido espiritual, o maior revolucionário da história" (Caesar and Christ, New York: Simon and Schuster, 1944, p. 566). [Tradução em português: César e Cristo (Rio de Janeiro: Record, 1986)].
2 A primeira declaração tem um longo histórico escolar sobre tal assunto, mas está principalmente associada ao pensamento de Paul Tillich (cf. as p. 3 e 9 de Paul Bjorklund, What Is Spirituality?, Plymouth, MN: Hazelden Foundation, 1983). A segunda declaração é de Leo Booth, When God Becomes a Drug, Los Angeles: Tarcher Inc., 1991, p. 20. O que está em jogo aqui é o inexorável esforço dos seres humanos para se tornarem "espirituais" sem Deus. Nem mesmo o ateísmo explícito nos protegerá da inquietante necessidade de um acerto de contas com nosso lado espiritual. Em termos populares, a presença desse esforço constante se manifesta nas surpreendentes revistas dispostas nos caixas do supermercado e em pessoas como Oprah e Shirley MacLaine. Mas a coisa é muito mais profunda que isso pode fazer crer. Tais propostas e as ameaças que representam para o genuíno discipulado de Cristo serão discutidas com mais detalhes no capítulo 6.
3 Sobre esses assuntos confira, por exemplo, Pierre Hadot, Philosophy as a Way of Life: Spiritual Exercises from Socrates to Foucault, em Arnold I. Davidson (ed.), Cambridge, MA: Blackwell, 1995, e Martha C. Nussbaum, The Therapy of Desire: Theory and Practice in Hellenistic Ethics, Princeton, NY: Princeton University Press, 1994. Existe, é claro, um oceano de literatura no pensamento oriental sobre a formação do espírito humano.
4 Verso de um hino tradicional americano de autoria desconhecida. (N. da T.)
5 De acordo com o Newsweek, 16 de abril de 2001, p. 49. A ironia está no fato de que cada um dos 33.800 grupos se considerar o "certo".
6 Embora não pretendendo uma abordagem acadêmica neste livro, pode ser útil comparar nossas declarações sobre formação espiritual e espiritualidade com alguns outros autores, por exemplo, Richard P. McBrien, Lives of the Saints, San Francisco: HarperSanFrancisco, 2001, especialmente p. 18-19, e Francis A. Schaeffer, True Spirituality, Wheaton, IL: Tyndale, 1971, no caso, p. 16-17. Acreditamos que muitos problemas profundos, relativos à espiritualidade e à formação espiritual, podem ser esclarecidos pelo confronto entre o que é dito neste volume e as idéias destes e de outros autores.
7 Por favor, consulte meu livro A conspiração divina, São Paulo: Mundo Cristão, 2001, cap. 5, para uma explicação mais detalhada dos ensinos de Jesus sobre esses e outros assuntos relacionados.
8 O famoso hino do qual esses versos foram extraídos, "Rock of Ages", de Augustus Toplady, capta o que foi a compreensão do povo de Cristo através de grande parte de seu passado: que a redenção cristã envolve, numa unidade compacta, tanto o perdão da culpa pelos pecados quanto a libertação de nossa vida da dominação do pecado. Embora sejam distintos, ambos aspectos não eram, em nosso passado, geralmente pensados de modo separado, e, é claro, eles não são jamais separáveis. Recordem-se também as palavras do hino de Charles Wesley, "O for a Thousand Tongues", SH 211: "Ele quebra o poder do pecado derrotado, / Ele livra o prisioneiro; / O seu sangue pode limpar os mais sujos; / O seu sangue me abençoou" [tradução livre].

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